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INTRODUÇÃO

As dificuldades de relacionamento interpessoal são a causa da maioria do sofrimento individual.  Sartre  disse que o inferno é o outro. Concordamos que os outros, de uma maneira geral, não estão lá muito empenhados em nosso bem estar.  Para eles é bem mais conveniente a nossa submissão do que nosso equilíbrio emocional.  Dito desta maneira, pode dar a impressão de que os outros são cruéis, insensíveis e não gostam de nós.  Não é bem assim.  Pessoas que nos amam sinceramente e nós também amamos tentam constantemente levar-nos a fazer o que elas querem que façamos pois, acham que é o melhor.

Nossa sociedade é extremamente manipulativa e crescemos em um meio em que todos manipulam uns aos outros, pois este é o paradigma.  Não é sem certa perplexidade e admiração que observamos crianças muito pequenas já manipulando habilmente seus pais, os adultos em geral e, também outras crianças.

Muitas vezes nos pedem um favor que não queremos fazer, pensamos em negá-lo, mas afirmamos que está tudo bem, sem problemas e acabamos por fazer o que não queríamos fazer, por temor do que é que o outro poderia sentir ou pensar. Assim, pouco a pouco, vamos mutilando a nossa auto-estima.

A SOCIEDADE E A EDUCAÇÃO NÃO FAVORECEM O USO DO “NÃO”

A educação leva sobretudo à passividade e produz indivíduos disciplinados e submissos.  O indivíduo chega ao ponto de integrar a certeza de que deve ser complacente, de que deve ceder diante da lei externa a fim de facilitar as relações sociais e reduzir as tensões.  E acabamos por recusar a recusa.  O peso dessa censura coletiva, sem esquecer a culpabilidade judaico-cristã, permanece entranhado durante toda a nossa vida.

É assim que não assumimos nossos desejos e ficamos com o costume de negar nossas próprias necessidades. O “correto” é ser conformista.  Isso é exigido pelo consenso social, toda a educação prepara e encoraja tal atitude. Ao aprovar o ponto de vista dominante, reforçamos nossa inserção no grupo, afirmamos que fazemos parte do mesmo clube.

PORQUE É TÃO DIFÍCIL DIZER NÃO

Deus menospreza o homem que diz sim com a boca e não com o coração.  (Talmude)

É inegável que em grande parte nós somos o que aprendemos a ser.  Aquela ansiedade que sentimos diante de algumas ou de todas as pessoas não é uma marca, um estigma que trazemos do berço.  É um fenômeno aprendido mas, se aprendemos alguma coisa, podemos, também,  desaprendê-la ou modificá-la.

As mensagens implícitas e explícitas recebidas de nossos pais e de outras pessoas significativas em nossa infância nos ensinavam como proceder.  As instruções diretas dadas pelos pais influenciam a aprendizagem infantil; são ordens tais como: “seja boazinha”, “obedeça sempre aos mais velhos” e a terrível pergunta: “o que é que os outros vão pensar de você?” (O que os outros vão pensar sobre nós é problemas deles.  O que nós pensamos sobre nós mesmos é o que  realmente importa.)

Então, como efeito colateral indesejado da educação, somos levados à passividade e tornamo-nos indivíduos submissos.  Desenvolvemos a crença de que devemos ser complacentes, que não temos o direito de recusar o que não é de nosso interesse, sob pena de sofrermos, do mundo externo,  uma censura coletiva e, de nós próprios, uma culpa auto-corrosiva, tão fartamente disseminada pela nossa cultura judaico-cristã.

O QUE É UMA VÍTIMA?

Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando que este vá comê-lo mais tarde.  (Winston Churchill)

Você está sendo vitimado em todas as ocasiões em que descobre que não controla sua vida.  A palavra chave aqui é CONTROLA.  Se você não dirigindo sua vida, alguém   está.

As vítimas são, antes de qualquer coisa, pessoas que levam a vida de acordo com os ditames de outrem.  Descobrem que fazem coisas que realmente não querem, ou estão sendo manipuladas e conduzidas para atividades carregadas de desnecessário volume de sacrifício pessoal, que geram ressentimentos.  Ser vitimado, da forma como uso aqui a palavra, significa ser governado e controlado por forças externas a você.  Mas, embora essas forças estejam indubitavelmente presentes em nossa cultura, você raramente pode ser vitimado,  a menos que permita que isso aconteça.

O QUE A OUTRA PESSOA VAI SENTIR?

“Quando você diz “não” está recusando o pedido, não está rejeitando a pessoa!”

O medo, e em algum sentido o costume, é de acreditar que a outra pessoa tomará a recusa como rejeição pessoal.  Mas não é precisamente este caso.  Sua própria firmeza assertiva pode arcar com 50 por cento da responsabilidade de transformá-la numa relação adulto – adulto.  Os outros 50 por cento podem ser arcados pela outra pessoa.  Somente evitando excessiva “proteção” (paternalismo)  à outra pessoa, poderá ser estabelecido um intercâmbio assertivo.  Parte da lição é aprender a deixar ao outro adulto a responsabilidade dos seus 50 por cento.

OS DIREITOS DAS PESSOAS

Aquele que respeita a si mesmo está protegido dos outros; ele usa uma armadura invulnerável.  (Henry Wadsworth Longfellow)

Muito se fala sobre os direitos humanos, de como as autoridades devem tratar os cidadãos.  Entretanto, pouco, muito pouco mesmo é falado sobre os direitos de auto-afirmação do indivíduo, isto é, de ser ele mesmo, de como ter uma participação saudável em suas interações com as outras pessoas.  Sistematicamente, e o que  é pior, por todos, inclusive nós mesmos,  são cobrados os deveres dos outros nos relacionamentos e esquecidos os seus direitos.

Quando crianças, fomos levados a aceitar e adotar uma série de normas e regras, “certas” e evitarmos as “erradas”, que nos levam a viver de forma muito limitada o potencial de nossos relacionamentos, criamos de certa forma uma prisão emocional.

A chave que abre as portas desta prisão é o questionamento de tais regras, estabelecidas de forma arbitrária, sabe-se lá por quem, e repetida pelos nossos pais, que as aprenderam de nossos avós, que aprenderam de nossos bisavós, etc. etc.

O que vamos aqui apresentar não são outras regras “certas”, mas sim uma lista de direitos que vamos analisar juntos, para ver se fazem ou não sentido para você. Se fizerem, cada uma que você adotar é menos um tijolo nas paredes da prisão que outras regras construíram, pois indicam o caminho da liberdade individual.

1.O direito de manter sua dignidade e respeito comportando-se de forma habilidosa ou assertiva – inclusive se a outra pessoa sente-se ferida – enquanto não viole os direitos humanos básicos dos outros.

2.  O direito de ser tratado com respeito e dignidade.

3.  O direito de negar pedidos sem ter que sentir-se culpado ou egoísta.

4.  O direito de experimentar e expressar seus próprios sentimentos.

5.  O direito de parar e pensar antes de agir.

6.  O direito de mudar de opinião.

7.  O direito de pedir o que quiser (entendendo que a outra pessoa tem o direito de dizer não).

8.  O direito de fazer menos do que é humanamente capaz de fazer.

9.  O direito de ser independente.

10.O direito de decidir o que fazer com seu próprio corpo, tempo e propriedade.

11.O direito de pedir informação.

12.O direito de cometer erros – e ser responsável por eles.

13.O direito de sentir-se bem consigo mesmo.

14. O direito de ter suas próprias necessidades e que estas sejam tão importantes quanto as dos demais.  Além disso, temos o direito de pedir (não exigir) aos demais que correspondam às nossas necessidades e decidir se satisfazemos as dos demais.

15. O direito de ter opiniões e expressá-las.

16. O direito de decidir se satisfaz as expectativas de outras pessoas ou se comporta-se seguindo seus interesses – sempre que não viole os direitos dos demais.

17. O direito de falar sobre o problema com a pessoa envolvida e esclarecê-lo, em casos-limite em que os direitos não estão totalmente claros.

18. O direito de obter aquilo pelo que paga.

19. O direito de escolher não comportar-se de maneira assertiva ou socialmente habilidosa.

20. O direito de ter direitos e defendê-los.

21. O direito de ser escutado e ser levado a sério.

22. O direito de estar só quando assim o desejar.

23. O direito de fazer qualquer coisa enquanto não viole os direitos de outra pessoa.

escrito por Dr. Luiz Ainbinder